A União Europeia

(Rui Gomes, in Facebook, 08/08/2025, Revisão da Estátua)


Tanta gente a gritar contra Putin e Trump, a chamar-lhes ditadores – Putin, sem dúvida, sentado no trono há um quarto de século e só sairá de lá quando a biologia o expulsar. Trump? Nem remotamente comparável: eleito com uma maioria esmagadora e limitado a um mandato de quatro anos, sem o poder absoluto que os histéricos lhe atribuem. Mas onde estão as multidões indignadas contra a União Europeia? Onde estão os cartazes furiosos contra esta máquina de poder não eleito que decide o destino de milhões sem um único voto direto?

A União Europeia é um teatro de fantoches onde os cordéis são puxados por burocratas não eleitos, e onde os cidadãos são apenas figurantes sem falas.

Apresentam-nos o Parlamento Europeu como uma prova de democracia, mas é uma farsa tão ridícula que até um manual de propaganda soviética teria vergonha de a imprimir. O único órgão diretamente eleito pelos europeus é também o único que não pode legislar. O povo vota, mas o seu voto vale menos do que papel higiénico já usado.

A Comissão Europeia, uma aristocracia de tecnocratas nomeados em negociatas de bastidores, é quem dita as regras – e o Conselho da UE, uma reunião de ministros que ninguém elegeu para cargos europeus, carimba o que bem entende. Isto não é um governo representativo, é um cartel de burocratas.

A farsa está bem montada: fazem eleições de cinco em cinco anos para um Parlamento sem poder, enquanto a Comissão Europeia – este governo clandestino de rostos cinzentos e intenções opacas – gere a Europa como um feudo privado. É ela que decide as leis, que define as políticas, que impõe regulamentos sem qualquer escrutínio real.

No final, os Estados-membros ou obedecem ou são castigados como crianças mal comportadas. Basta olhar para a Grécia em 2015 para perceber como a “democracia” funciona aqui: um povo vota contra a austeridade, mas a Comissão e os seus comparsas financeiros apertam o laço até que a vontade popular seja irrelevante.

O resultado é um superestado burocrático onde a única coisa que cresce é a centralização do poder. O Parlamento Europeu é uma montra vazia, uma distração brilhante para iludir quem ainda acredita que a sua voz conta. Mas na UE, a voz do cidadão é abafada pela linguagem árida dos tratados e pelo peso esmagador de um sistema desenhado para que a vontade popular seja um detalhe incómodo, facilmente ignorável. Chamam-lhe União Europeia, mas devia chamar-se União Oligárquica.

O que fazer? Continuar a fingir que esta estrutura pode ser reformada é tão ingénuo como acreditar que um lobo pode ser ensinado a pastar. O jogo está viciado, e a única maneira de ganhar é deixar a mesa.

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3 pensamentos sobre “A União Europeia

  1. Esse mantra das democracias contra as ditaduras tem muito que se lhe diga. Sempre o amigo americano adorou ajavardar-se e chafurdar nas ditaduras mais sanguinárias, como as do M.Oriente, por exemplo ou da A. latina, desde que os respectivos executivos alinhassem pelos interesses do Império. Ainda agora, o novo senhor da Síria, um conhecido terrorista sanguinolento, foi subitamente promovido a democrata confiável, foi-lhe retirado o mandato de captura e as sanções desapareceram num àpice. Inversamente, Maduro e o desgraçado povo venezuelano continua a ser esmagado por brutais sanções e até hoje já tem a a cabeça a prémio, imagine-se. A tremendíssima arrogância e desfaçatez do trumpismo está a atingir níveis nunca antes vistos. E a gente bem sabe a que conduz tanta arrogância de um líder aspirante a senhor do mundo. A sra Ursula decidiu baixar as calcinhas e dizer amen a todas as absurdas exigências do dito, pensando com isso acalmá-lo. Mas ele avisou logo que o acordo (capitulação) ou é cumprido na íntegra (transferências brutais de dinheiro da UE para os EUA) ou então as tarifas disparam. Já toda a gente deveria ter percebido que com gentalha desse calibre não pode haver colaboração possível. É fazer como o Brasil. Não podendo mais exportar café para os EUA, vai fazê-lo para a China.

  2. Escreveu o articulista “Trump? Nem remotamente comparável: eleito com uma maioria esmagadora e limitado a um mandato de quatro anos…” Maioria esmagadora? Só se foi do Colégio Eleitoral do Congresso, porque no voto popular foi o que se viu….

  3. Dava jeito perguntar o que e que o articulista pensa de um queridinho da extrema direita internacional, Nayb Bukele de seu nome, não tenho a certeza se a grafia e esta mas e o presidente de El Salvador.
    Por lá os presidentes estavam limitados pela Constituição a um único mandato, o sujeito conseguiu alterar a Constituição para um segundo e agora para só sair do poder quanto a biologia o fitar.
    E sendo que tem mais de 30 anos menos que Putin e de supor que esteja lá muito mais tempo.
    Quanto a Trump provavelmente não conseguirá mudar a Constituição americana até porque está muito limitado pela biologia, contando já 78 anos.
    Mas vontade não lhe falta e já o disse com as letras todas.
    De resto os tiques de ditador do mundo são todos os possíveis e imaginários. A última proeza foi por a premio a cabeça do presidente venezuelano por 50 milhões de dólares.
    E pergunto já agora quem no lugar de Putin não tentaria ficar lá mais tempo. Podera ele fiar se em que um sucessor não terá a tentação de fazer as pazes com o Ocidente entregando o as masmorras ocidentais?
    Isto de ditadores tem que se lhe diga.

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